Críticas à Ciência Aberta nas Ciências Humanas e Sociais: uma análise taxonômica
- Ciência da Informação Express CIE
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por Ciexpress
O artigo “The French HSS Community speaks out on Open Science: a top-down and bottom-up taxonomy approach”, de Candice Fillaud, Chérifa Boukacem-Zeghmouri, Yutong Fei e Valentine Favel-Kapoian, investiga como pesquisadores das Ciências Humanas e Sociais (CHS) na França têm reagido às políticas de Ciência Aberta. O estudo revela que, embora a abertura do conhecimento seja amplamente defendida, há críticas consistentes quanto à forma como essas políticas são implementadas, especialmente no que diz respeito ao tratamento dos dados de pesquisa, apontado como o principal foco de tensão (Fillaud et al., 2025).

Nos últimos anos, a Ciência Aberta tem se consolidado como um paradigma central na comunicação científica, promovendo o acesso aberto, o compartilhamento de dados e a transparência nos processos de pesquisa. Iniciativas internacionais e taxonomias conceituais, como a proposta por Silveira et al. (2023), ampliaram a compreensão desse movimento ao estruturar suas múltiplas dimensões, incluindo dados abertos, acesso aberto, avaliação aberta e ciência cidadã. No entanto, pesquisadores das CHS têm questionado a universalização dessas diretrizes, argumentando que elas frequentemente ignoram a diversidade epistemológica e metodológica dessas áreas (Knochemann, 2019; Moore, 2019).
Para compreender essas críticas, os autores realizaram um estudo exploratório baseado na análise de 45 publicações acadêmicas críticas à Ciência Aberta, produzidas entre 2018 e 2024. A pesquisa combinou duas abordagens complementares: uma análise Top-Down, baseada em taxonomias existentes da Ciência Aberta (como a de Silveira et al., 2023), e uma análise Bottom-Up, que construiu uma taxonomia a partir dos próprios argumentos dos pesquisadores. Ao todo, foram analisados 250 trechos argumentativos, permitindo mapear padrões discursivos e categorias analíticas (Fillaud et al., 2025).
Os resultados evidenciam que as críticas se concentram principalmente em aspectos epistemológicos, legais, práticos e econômicos. Um dos pontos centrais é a inadequação de modelos padronizados de compartilhamento de dados em áreas nas quais esses dados são interpretativos, contextuais e muitas vezes sensíveis. Essa questão dialoga com discussões anteriores sobre a construção social dos dados nas CHS (Cotte, 2016) e com preocupações sobre a imposição de modelos normativos derivados das ciências exatas (Leonelli, 2023). Além disso, os pesquisadores destacam a falta de reconhecimento institucional das atividades relacionadas à Ciência Aberta, como a curadoria de dados, bem como os custos ocultos envolvidos nesse processo (Hostler, 2023).
Outro aspecto relevante identificado pelo estudo é a percepção de que a Ciência Aberta pode estar associada a lógicas neoliberais de produção científica, reforçando processos de mercantilização do conhecimento e ampliando mecanismos de controle institucional (Mirowski, 2018; Moore, 2017). Essa crítica se articula com preocupações mais amplas sobre a autonomia das CHS, historicamente analisadas por autores como Bourdieu (2001), que já apontava tensões entre produção científica e estruturas de poder.
Ao propor uma taxonomia das críticas à Ciência Aberta, o estudo oferece uma ferramenta analítica inovadora que permite compreender como diferentes argumentos se organizam e se relacionam. Essa abordagem contribui para identificar quais dimensões da Ciência Aberta são mais problemáticas e quais permanecem pouco exploradas, reforçando a importância de modelos mais flexíveis e adaptáveis às especificidades disciplinares (Fillaud et al., 2025).
A pesquisa evidencia que a construção de uma Ciência Aberta mais inclusiva depende do reconhecimento da diversidade das práticas científicas e do diálogo entre políticas institucionais e comunidades acadêmicas. Ao dar visibilidade às vozes das CHS, o estudo aponta para a necessidade de repensar modelos normativos e avançar em direção a uma ciência mais plural, ética e contextualizada. Esses resultados têm implicações diretas para a formulação de políticas públicas e para o futuro da comunicação científica em escala global.
Referências
BOURDIEU, Pierre. Science de la science et réflexivité. Paris: Raisons d’agir, 2001.
COTTE, Dominique. Les données de la recherche—un objet de la recherche en sciences humaines et sociales? Études digitales, v. 2, n. 2, p. 23–39, 2016. DOI: https://doi.org/10.15122/isbn.978-2-406-07064-1.p.0023.
FILLAUD, Candice; BOUKACEM-ZEGHMOURI, Chérifa; FEI, Yutong; FAVEL-KAPOIAN, Valentine. The French HSS Community Speaks Out on Open Science: A Top-Down and Bottom-Up Taxonomy Approach. Journal of Electronic Publishing, v. 29, n. 1, 2025. DOI: https://doi.org/10.3998/jep.7835.
HOSTLER, Thomas J. The invisible workload of open research. Journal of Trial and Error, v. 4, n. 1, 2023. DOI: https://doi.org/10.36850/mr5.
KNÖCHELMANN, Marcel. Open science in the humanities, or: open humanities? Publications, v. 7, n. 4, 2019. DOI: https://doi.org/10.3390/publications7040065.
LEONELLI, Sabina. Philosophy of open science. Cambridge: Cambridge University Press, 2023. DOI: https://doi.org/10.1017/9781009416368.
MIROWSKI, Philip. The future(s) of open science. Social Studies of Science, v. 48, n. 2, p. 171–203, 2018. DOI: https://doi.org/10.1177/0306312718772086.
MOORE, Samuel A. A genealogy of open access: negotiations between openness and access to research. Revue française des sciences de l’information et de la communication, n. 11, 2017. DOI: https://doi.org/10.4000/rfsic.3220.
MOORE, Samuel A. Common struggles: policy-based vs. scholar-led approaches to open access in the humanities. 2019. Tese (Doutorado) – King’s College London, London, 2019.
SILVEIRA, Lúcia da; RIBEIRO, Nivaldo Calixto; MELERO, Remedios et al. Taxonomia da Ciência Aberta: revisada e ampliada. Encontros Bibli: Revista eletrônica de biblioteconomia e ciência da informação, v. 28, p. 1–23, 2023. DOI: https://doi.org/10.5007/1518-2924.2023.e917
Para ler o artigo na íntegra, acesse o texto completo em:
FILLAUD, Candice; BOUKACEM-ZEGHMOURI, Chérifa; FEI, Yutong; FAVEL-KAPOIAN, Valentine. The French HSS Community Speaks Out on Open Science: A Top-Down and Bottom-Up Taxonomy Approach. Journal of Electronic Publishing, v. 29, n. 1, 2025. DOI: https://doi.org/10.3998/jep.7835.
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Release elaborado com apoio de Large Language Model (ChatGPT), com condução humana da equipe editorial do Ciexpress News.




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