Inteligência artificial pode tornar imagens científicas mais acessíveis - mas revisão humana continua essencial
por Ciexpress
O artigo “Audiodescrição e Inteligência Artificial: acessibilidade na comunicação científica”, de Ana Paula Lima dos Santos e Ruth Maria Mariani Braz, investiga se ferramentas de inteligência artificial generativa podem contribuir para tornar imagens de textos acadêmicos acessíveis a pessoas com deficiência visual. Em um cenário em que gráficos, fotografias, tabelas e outros conteúdos visuais estão cada vez mais presentes na circulação digital da ciência, o estudo mostra que a IA consegue identificar elementos, cores e relações espaciais e produzir descrições estruturadas, mas ainda apresenta falhas que exigem mediação humana, como excesso de detalhes, interpretações implícitas e ausência de sinalização adequada de acessibilidade.

A questão ganha relevância diante das barreiras que ainda dificultam o acesso equitativo à informação. No Brasil, mais de 18,6 milhões de pessoas possuem algum tipo de deficiência, segundo dados citados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2023), e cerca de 7,9 milhões apresentam dificuldade para enxergar mesmo utilizando óculos ou lentes de contato. No universo científico, essas barreiras aparecem quando conteúdos visuais são publicados sem recursos adequados de acessibilidade. Para os autores, tornar a ciência aberta não significa apenas permitir acesso gratuito aos documentos: o conhecimento também precisa ser compreensível e utilizável por diferentes públicos, incluindo pessoas com deficiência (UNESCO, 2022).
A audiodescrição atua justamente nessa fronteira ao traduzir informações visuais em linguagem verbal. Embora seja conhecida sobretudo por sua aplicação no cinema, no teatro e em conteúdos audiovisuais, ela também pode ser empregada em fotografias, gráficos e outras imagens presentes em publicações científicas (ENAP, 2020). Essa prática ganha importância diante da chamada escassez de obras acessíveis: estimativas reunidas no artigo indicam que apenas cerca de 7% das obras publicadas mundialmente estão disponíveis em formatos acessíveis, proporção que pode ser inferior a 1% em países em desenvolvimento (Coates et al., 2020). O estudo chama atenção ainda para uma lacuna editorial: a descrição acessível de imagens não constitui prática sistematicamente institucionalizada em muitos periódicos científicos.
Para avaliar o potencial da tecnologia, os pesquisadores realizaram um estudo exploratório e analítico, de abordagem qualitativa. O corpus foi composto por uma imagem criada com o ChatGPT e posteriormente submetida ao próprio modelo de linguagem para geração automática de uma audiodescrição, mediante o comando simples “faça audiodescrição da imagem”. A resposta foi examinada segundo critérios utilizados pela Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), entre eles objetividade, relevância das informações, organização dos elementos visuais, clareza da linguagem e sinalização da descrição. A versão produzida pela IA também foi comparada a uma versão revisada com mediação humana.
A comparação mostrou um desempenho desigual. A IA identificou corretamente as plataformas e os valores presentes no gráfico analisado, organizou a descrição em sequência lógica e empregou adequadamente verbos no presente. Em contrapartida, atendeu apenas parcialmente aos critérios de ausência de julgamento e objetividade, além de não incluir um marcador inicial de acessibilidade. Expressões interpretativas e detalhamento além do necessário também foram apontados como problemas. A revisão humana permitiu selecionar melhor as informações, eliminar interpretações implícitas e tornar a descrição mais adequada aos princípios da acessibilidade informacional, indicando que a IA funciona melhor como ferramenta de apoio, e não como substituta do trabalho crítico de profissionais envolvidos na mediação da informação.
Os resultados sugerem aplicações para bibliotecas universitárias, repositórios institucionais, periódicos e plataformas de gestão da produção científica, onde ferramentas automatizadas poderiam ampliar e padronizar práticas de acessibilidade. Os próprios autores, entretanto, ressaltam o caráter exploratório do estudo e a limitação decorrente do corpus reduzido e do uso de uma única ferramenta de IA. Como próximo passo, defendem pesquisas com diferentes imagens, gráficos e modelos de inteligência artificial e, especialmente, a participação direta de pessoas com deficiência na avaliação das audiodescrições. A principal contribuição do trabalho está, assim, em indicar um caminho para incorporar a IA à comunicação científica sem transformar automação em sinônimo de acessibilidade: tecnologia, critérios normativos e mediação humana precisam atuar conjuntamente para ampliar o direito de acesso ao conhecimento.
Referências citadas no release
COATES, Jessica et al. Caminhando: implementação do Tratado de Marraqueche para pessoas cegas, com deficiência visual ou com outras dificuldades para ter acesso ao texto impresso: um guia prático para bibliotecários. São Paulo: FEBAB/CBDA3, 2020. Disponível em: http://repositorio.febab.org.br/items/show/4608.
ESCOLA NACIONAL DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA (ENAP). Módulo 1: Introdução à Audiodescrição. In: ENAP. Introdução à Audiodescrição. Brasília, DF: Escola Nacional de Administração Pública, 2020. Curso.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pessoas com deficiência têm menor acesso à educação, ao trabalho e à renda. Brasília, DF: IBGE, 2023. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/37317-pessoas-com-deficiencia-tem-menor-acesso-a-educacao-ao-trabalho-e-a-renda. Acesso em: 12 jun. 2026.
UNESCO. Recomendação da UNESCO sobre Ciência Aberta. Paris: UNESCO, 2022.
Para ler o artigo na íntegra
SANTOS, Ana Paula Lima dos; BRAZ, Ruth Maria Mariani. Audiodescrição e inteligência artificial: acessibilidade na comunicação científica. Ciência da Informação Express, Lavras, MG, v. 7, 2026. DOI: https://doi.org/10.60144/v7i.2026.209.
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Release elaborado com apoio de Large Language Model (ChatGPT), com condução humana da equipe editorial do Ciexpress News.




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