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Entre memória e algoritmo: estudo aponta caminhos para preservar a cultura pomerana na era da IA

por Ciexpress


Imagens produzidas por inteligência artificial podem integrar o patrimônio documental de uma comunidade, mas sua preservação exige participação social, contexto e mediação arquivística. Essa é uma das principais conclusões do artigo “Data-driven call to action for the archival proactive custodianship from AI-generated images publics’ perceptions”, de Taiguara Villela Aldabalde, Claudio Gottschalg-Duque e Thomas Mandl. Ao investigar percepções sobre imagens de IA relacionadas ao patrimônio cultural imaterial da língua pomerana brasileira, os pesquisadores identificaram forte demanda por atuação institucional: 82,7% dos participantes defenderam a criação de registros oficiais em língua pomerana brasileira, enquanto 78,7% reconheceram valor na preservação dessas imagens para as futuras gerações.  

O estudo parte de um contexto marcado pela predominância da tradição oral e pela reduzida presença de registros escritos e visuais da cultura pomerana em arquivos públicos. No Brasil, Santa Maria de Jetibá, no Espírito Santo, constitui um importante centro linguístico e cultural da língua pomerana brasileira, que também permanece ativa em outras localidades do país (Morello; Silveira, 2023). Ao mesmo tempo, descendentes de pomeranos passaram a utilizar ferramentas de IA generativa para produzir representações visuais de práticas, costumes e memórias culturais. O fenômeno amplia as possibilidades de documentação, mas traz desafios importantes: plataformas comerciais de IA não foram concebidas para assegurar requisitos arquivísticos como proveniência, autenticidade, integridade, confiabilidade e preservação de longo prazo (Duranti, 2022). A pesquisa busca preencher justamente um espaço ainda pouco explorada: compreender como o próprio público percebe esses novos documentos culturais e o que essa percepção pode ensinar para as técnicas de arquivos.  


Para isso, os autores realizaram um estudo exploratório de abordagem qualitativa, apoiado por estatística descritiva. Entre julho e outubro de 2025, foram obtidas 75 respostas válidas por meio de amostragem não probabilística em bola de neve. Um questionário semiestruturado, divulgado principalmente pelo Instagram e disponibilizado no Google Forms, investigou aspectos como autenticidade, reconhecimento cultural, usos das imagens, valor de preservação e percepção dos riscos da IA. A pesquisa também incluiu observações documentais in situ em Santa Maria de Jetibá. As respostas fechadas foram analisadas por frequências e percentuais, utilizados como apoio à interpretação das atitudes dos participantes, sem pretensão de generalização estatística para toda a população.


Os resultados mostram uma percepção que combina aceitação das possibilidades da IA com preocupação sobre seus riscos culturais. Entre os participantes, 77,3% reconheceram potencial educacional nas imagens geradas por IA, 74,7% apontaram sua utilidade para a transmissão cultural e 68% atribuíram a elas valor para a memória cultural. Ao mesmo tempo, 82,4% reconheceram o risco de que o uso não mediado da IA possa substituir, distorcer ou representar inadequadamente elementos do patrimônio imaterial pomerano. O interesse em capacitação também se destacou: 70,7% dos respondentes manifestaram vontade de compreender melhor a inteligência artificial e 61,3% demonstraram interesse em conhecer sua relação com os arquivos. Para os autores, esses dados indicam que a questão não deve ser reduzida a aceitar ou rejeitar a tecnologia, mas envolve desenvolver competências para utilizá-la de forma crítica e culturalmente responsável (Aldabalde; Gottschalg-Duque; Mandl, 2026).  


A principal contribuição do trabalho está na defesa de uma custódia arquivística proativa e participativa. Em vez de atuar somente depois que os documentos chegam ao arquivo, o arquivista passa a ser concebido como mediador sociotécnico, capaz de colaborar desde o momento da criação dos registros, perspectiva compatível com a ampliação dos modelos participativos de arquivamento discutida por Gibbons (2019) e Cook (2020). Para documentos produzidos com IA, isso significa preservar não apenas a imagem final, mas também informações sobre sua origem, os prompts, os contextos culturais, os metadados e paradados e a participação da comunidade que lhes atribui significado. Na prática, os autores apontam para arquivos bilíngues e multimodais, ações de alfabetização em IA e em arquivos, orientações para a criação de registros e processos participativos de documentação. Assim, a tecnologia pode contribuir para dar visibilidade à cultura pomerana sem substituir a voz de seus próprios integrantes.  


Referências citadas no release


BUCKLAND, Michael. Information and society. Cambridge: MIT Press, 2017.


COOK, Terry. Evidence, memory, identity, and community: four shifting archival paradigms. In: NESMITH, T.; BAK, G.; SCHWARTZ, J. M. (ed.). All shook up: the archival legacy of Terry Cook. [S. l.]: Society of American Archivists; Association of Canadian Archivists, 2020. p. 444–460.


DURANTI, Luciana. Why a world gone digital needs archival theory more than ever before? Archeion, v. 123, p. 10–30, 2022.


GIBBONS, Leisa. Memory-making: a review of the community heritage grant program 1994–2018. Archives and Manuscripts, [S. l.], v. 47, n. 2, p. 204–229, 2019. DOI: https://doi.org/10.1080/01576895.2019.1584860.


MORELLO, R.; SILVEIRA, M. Inventário da língua pomerana: língua brasileira de imigração. Florianópolis: Garapuvu; IPOL, Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística, 2023.


Para ler o artigo na íntegra


ALDABALDE, Taiguara Villela; GOTTSCHALG-DUQUE, Claudio; MANDL, Thomas. Data-driven call to action for the archival proactive custodianship from AI-generated images publics’ perceptions. Ciência da Informação Express, Lavras, MG, v. 7, 2026. DOI: https://doi.org/10.60144/v7i.2026.205.


Transparência editorial: Release elaborado com apoio de Large Language Model (ChatGPT), com condução humana da equipe editorial do Ciexpress News.

 
 
 

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