Role-Playing Game na Ciência da Informação: uma história a ser contada

Atualizado: Mai 12

por Gabriela Prates da Silva*


O Role-Playing Game na perspectiva da Ciência da Informação, mostrando algumas práticas e tendências de pesquisa sobre a temática.


No início da década de 1970 surgia, nos Estados Unidos, o primeiro Role-Playing Game (RPG) intitulado Dungeons and Dragons (D&D). Devido a popularidade deste jogo, diversos outros foram sendo lançados, trazendo novidades tanto em relação aos cenários quanto aos sistemas de regras (FIGURA 1).


FIGURA 1 - História do RPG: linha do tempo

Fonte: Silva e Silva (2020a)

O RPG chegou ao Brasil nos anos 1980, por meio de estudantes que conheciam o jogo no exterior e o traziam para o país. Anos mais tarde, as livrarias começaram a importar o jogo oficialmente, porém ainda sem tradução. Somente em 1991, sairia a primeira tradução de um jogo de RPG, pela editora Devir (FIGURA 2).


FIGURA 2 - RPG no Brasil: linha do tempo


Fonte: Silva e Silva (2020b) O RPG é um jogo de interpretação onde um grupo se reúne para contar histórias de forma colaborativa, utilizando um conjunto de regras pré-definidas, papel, lápis, alguns dados e, principalmente, a imaginação. Um dos membros do grupo é escolhido para ser o narrador (mais comumente chamado de mestre), que é aquele que vai guiar os demais jogadores pela história.


Durante muito tempo, este foi um jogo visto como mais uma atividade de adolescentes, porém, com o passar do tempo, diversas áreas começaram a lançar seu olhar para ele. A Educação, aqui no Brasil, foi a que mais desenvolveu estudos e práticas sobre o RPG como, por exemplo, o trabalho de Zamariam (2016), em que ela propõe o uso do RPG como alternativa metodológica para o ensino da literatura literária nas aulas de língua portuguesa. Outro trabalho que merece destaque é o de Pavão (2000) que tenta compreender os processos de leitura e escrita de mestres de RPG. Além destes, outros trabalhos foram desenvolvidos no ensino de diversas áreas como, por exemplo, a Sociologia (GARCIA, 2019) e a Física (NASCIMENTO JÚNIOR; PIASSI, 2015).


No ano de 2002, foi realizado em São Paulo o I Simpósio de RPG e Educação que tinha como objetivos responder o que é o RPG, porque usá-lo como ferramenta pedagógica e como utilizá-lo na educação (ZANINI, 2004, p. 4). Este evento foi um marco para o RPG na área da Educação, pois se tratava do primeiro voltado para esta temática.


A Ciência da Informação demonstra uma preocupação com diversos contextos (científico, social, econômico, tecnológico e político), preencher a lacuna teórica no estudo do uso de informação em cenários do cotidiano é um desafio, já que a natureza deste tipo de estudo é diferente da vista nos mais formais (SERAFIM; FREIRE, 2015). Para os autores, o cenário do cotidiano é aquele ligado ao lazer, já os mais formais são os acadêmicos e os profissionais. Porém, a realização de estudos sobre o cotidiano não significa que os modelos já existentes precisam ser eliminados, mas sim que é necessária uma complementação.


Observando este cenário, diversos estudos sobre o RPG são possíveis como, por exemplo, trabalhando com a comunidade deste hobby e sua interação com a informação (COSTA, 2019), o uso deste jogo na gestão da informação (NUNES, 2004), ou ainda como recurso de ação cultural em bibliotecas e outros espaços informacionais (VELOSO, 2019).


Na prática, existem algumas bibliotecas que já utilizam o RPG, sendo em seu acervo ou em ações culturais realizadas em suas imediações. A Biblioteca Pública do Paraná (BPP) abre semanalmente, desde 2013, para grupos que queiram jogar RPG e mantém um projeto chamado “Sábado Lúdico” voltada para crianças de 06 a 12 anos e que acontece na Seção Infantil da BPP, oferecendo uma programação com “[...] atividades que contribuem para a socialização e estimulam a imaginação dos participantes por meio de jogos de tabuleiros, card games e RPG” (GROSS, 2019). Em 2018 a Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte realizou um evento de RPG e, também, possui diversos materiais de RPG em seu acervo.


Silva (2020) revela em sua revisão bibliográfica do tipo scoping review como a Ciência da Informação tem compreendido o RPG. Os principais resultados mostram que apesar da pouca exploração dessa temática na Ciência da Informação, a área tem visto o RPG como uma ferramenta interessante para se aplicar de forma educacional (KREISMANN CARTER, 2004; COPELAND et. al., 2013; ZEREGA-GARAYCOA, 2015), e o mais recorrente em atividades culturais nos espaços de informação (BROWN; KASPER, 2013; WASILEWSKA, 2017). A nuvem** de palavras*** das temáticas mais frequentes (FIGURA 3), extraídas de 21 artigos com a temática do RPG, publicados em revistas da Ciência da Informação e que foram recuperados nas bases BRAPCI, LISA e ISTA, mostraram algumas tendências de interesse no tema.

FIGURA 3 - Nuvem de Palavras: Temáticas relacionadas ao RPG na CI

Fonte: Elaboração própria.


A autora conclui que a “aplicação do RPG na Ciência da Informação ocorre em sua maioria como propostas ou relatos de programações em bibliotecas, seguido por dicas para criação de coleções e aplicações deste jogo como ferramenta educacional [...]” (SILVA, 2020, p. 67).


Como é possível perceber, são diversas as formas de se trabalhar com o RPG e de utilizá-lo e não apenas em ações culturais em seus diversos ambientes, mas também na formação de pessoas, bem como na atualização ao longo da vida. A Ciência da Informação ainda está começando a se apropriar da temática e existe um potencial a ser explorado.


Referências


BROWN, R. T.; KASPER, T. The fusion of literacy and games: A case study in assessing the goals of a library video game program. Library Trends, Baltimore, EUA, v. 61, n. 4, p. 755–778, 2013. DOI: 10.1353/lib.2013.0012. Disponível em:

https://core.ac.uk/download/pdf/18618876.pdf. Acesso em: 10 abr. 2021.


COPELAND, T. et al. Three different paths for tabletop gaming in school libraries. Library Trends, Baltimore, EUA, v. 61, n. 4, p. 825–835, 2013. DOI: 10.1353/lib.2013.0012. Disponível em: https://www.ideals.illinois.edu/bitstream/handle/2142/46058/61.4.copeland.pdf?sequ ence=2&isAllowed=y. Acesso em: 10 abr. 2021.


COSTA, E. C. Mediação da informação no jogo RPG de Mesa. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Biblioteconomia) - Departamento de Ciências da Informação, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2019.

Disponível em: http://www.repositorio.ufc.br/handle/riufc/45918. Acesso em: 31 mar. 2021.


GARCIA, H. RPG, Imaginação Sociológica e Ensino de Sociologia: análise de caso a partir da experiência de estágio no Colégio de Aplicação. 2019. 103 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Ciências Sociais) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Ciências Sociais, Florianópolis, 2019. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/200513. Acesso em: 31 mar. 2021.


GROSS, L. A. da R. Resposta email. Destinatário: Gabriela Prates da Silva. Curitiba, 30 set. 2019, e-mail.


KREISMANN CARTER, K. Educação Patrimonial e Biblioteconomia: uma interação inadiável. Informação & Sociedade: Estudos, João Pessoa, v. 14, n. 2, p. 31–52, 2004. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/article/view/59/1531. Acesso em: 10 abr. 2021.


NASCIMENTO JÚNIOR, F. A.; PIASSI, L. P. Role-Playing Games nas Aulas de Física. Revista de Enseñanza de la Física, v. 27, n. Extra, nov. 2015, p. 675-681. Disponível em: https://revistas.unc.edu.ar/index.php/revistaEF/article/view/12721f. Acesso em: 31 mar. 2021.


NUNES, H. de F. O jogo RPG e a socialização do conhecimento. Encontros Bibli: revista eletrônica de biblioteconomia e ciência da informação, [S. l.], v. 9, n. 2, p. 75-85, 2004. DOI: 10.5007/1518-2924.2004v9nesp2p75. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/eb/article/view/1518-2924.2004v9nesp2p75. Acesso em: 12 abr. 2021.


PAVÃO, A. A Aventura da leitura e da escrita entre mestres de Roleplaying Games (RPG). 2.ed. São Paulo: Devir, 2000.


SILVA, G. P da. O Role-Playing Game na Ciência da Informação: uma aventura épica entre dois mundos. 2020. 75 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharel em Biblioteconomia) - Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2020.


SILVA, G. P.; SILVA, E. P. História do RPG: linha do tempo. Figshare, 2020a. 1 imagem digital, color. Disponível em: https://figshare.com/articles/Linha_do_Tempo_RPG_png/12493895. Acesso em: 10 abr. 2021.


SILVA, G. P.; SILVA, E. P. RPG no Brasil: linha do tempo. Figshare, 2020b. 1 imagem digital, color. Disponível em: https://figshare.com/articles/Linha_do_Tempo_RPG_no_Brasil_png/12493988. Acesso em: 10 abr. 2021.


VELOSO, W. de S. O Roleplaying Game aplicado como recurso de ação cultural em bibliotecas públicas. São Cristóvão, SE, 2019. Monografia (Graduação em Biblioteconomia) – Curso de Biblioteconomia e Documentação, Departamento de Ciência da Informação, Centro de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2019 Disponível em: https://ri.ufs.br/handle/riufs/11582. Acesso em: 31 mar. 2021.


WASILEWSKA, L. Klub Gier Niekomputerowych – miejsce dla mlodych. Biuletyn EBIB, Varsóvia, Polônia, v. 175, n. 5, p. 1–7, 2017. Disponível em:

http://ebibojs.pl/index.php/ebib/article/view/111/106. Acesso em: 10 abr. 2021.


ZAMARIAM, F. S. O RPG como alternativa metodológica para o ensino da leitura literária nas aulas de língua portuguesa. Blucher Social Science Proceedings, São Paulo, v.2, n. 4, p. 1338-1349, set. 2016. Trabalho apresentado no 11. Seminário de Pesquisa em Ciências Humanas, Londrina, 2016. Disponível em:

http://pdf.blucher.c om.br.s3-sa-east-1.amazonaws.com/socialsciencesproceedings/xi

-sepech/gt14_306.pdf. Acesso em: 31 mar. 2021.


ZANINI, M. C. Apresentação. In: SIMPÓSIO RPG & EDUCAÇÃO, 1., 2002, São Paulo. Anais [...]. São Paulo: Devir, 2004. p. 3-5.


ZEREGA-GARAYCOA, M. M. Un “tuiterazo” por la independencia: una experiencia del uso de Twitter para la enseñanza de Historia. AtoZ: novas práticas em informação e conhecimento, Curitiba, v. 4, n. 2, p. 74–83, jul./dic. 2015. DOI: http://dx.doi.org/10.5380/atoz.v4i2.43596. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/atoz/article/view/43596/27168. Acesso em: 10 abr. 2021.


Dados biográficos da autora


*Gabriela Prates da Silva é técnica em Biblioteconomia pela Escola Técnica Cristo Redentor e Bacharel em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Jogadora de RPG desde 2013, pesquisa o RPG desde de 2015. Desenvolveu diversas pesquisas, incluindo a realização de um tesauro sobre RPG juntamente com a sua colega Amanda Schmidt Carvalho, um artigo sobre o comportamento informacional e o imaginário de mestres de RPG com a mesma colega e o TCC da graduação sobre o RPG na Ciência da Informação.

E-mail: moguy.guynley@gmail.com

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-0029-9538


** A nuvem de palavras foi construída utilizando o Infogram (https://infogram.com/).

***As palavras foram padronizadas de acordo com o Tesauro Brasileiro de Ciência da Informação (TBCI), porém esta ferramenta não se mostrou suficiente sendo necessária, portanto, a criação de diversos termos adicionais.

Como citar


SILVA, G. P. Role-Playing Game na Ciência da Informação: uma história a ser contada. Ciência da Informação Express, [S. l.], v. 2, n. 4, 14 abr. 2021. Disponível em: https://www.cienciadainformacaoexpress.com/post/role-playing-game-na-ci%C3%AAncia-da-informa%C3%A7%C3%A3o-uma-hist%C3%B3ria-a-ser-contada

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