Desinformação, crise de confiança na ciência e necessidade de políticas para divulgação científica

Atualizado: Mai 12

Silvania Alves Ferreira*

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Dalgiza Andrade de Oliveira**

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Em tempos de negacionismo e falta de confiança na ciência, entende-se que investir em políticas públicas para a divulgação científica torna-se essencial para combater a desinformação e demonstrar a importância da ciência perante a sociedade.

Fonte: Altman (2014).

O avanço científico e tecnológico transforma significativamente a vida em sociedade e impacta o modo como as pessoas realizam as mais diversas atividades no dia a dia e o modo como se relacionam com o meio ambiente. Essas transformações e impactos são, cada vez mais, foco de estudos e preocupação por parte de cientistas, docentes, pesquisadores, estudantes e, de certo modo, da população em geral.


De acordo com a pesquisa de percepção pública da Ciência e Tecnologia (C&T) no Brasil 2019, realizada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) e o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), 62% da população brasileira tem interesse por assuntos de C&T. Embora haja interesse, a pesquisa identificou que é baixo o número de pessoas que acessam esse tipo de informação pelas mídias, ainda assim, a internet foi citada como a principal fonte de acesso (14%). Também a visitação a espaços científico-culturais é baixa, o percentual de visitas a museus de C&T, por exemplo, foi de 6,3%. A pesquisa também identificou que é grande o número de brasileiros que não sabem citar o nome de um cientista (90%) ou de uma instituição de pesquisa (88%).


Para Moreira (2008), a principal razão para o baixo nível de informação e de conhecimento da população com relação à C&T é a ausência de uma educação científica de qualidade nos ensinos fundamental e médio. Acrescenta que a divulgação científica promovida pela mídia e pelos museus e centros de ciência são insuficientes.


Diante desse cenário, entende-se necessário que haja um esforço conjunto entre governo, agências de fomento, universidades, bibliotecas, institutos, centros e demais instituições de pesquisa para que haja comunicação dos resultados de pesquisa de modo a reverter esse quadro de falta de acesso, de pouca apropriação da informação científica e da lacuna existente entre C&T e a sociedade. Como elucida Oliveira (2007, p. 1), “a ciência precisa descer da torre de marfim e se aproximar da sociedade”.


Assim, são necessárias políticas públicas que garantam acesso à informação científica para o público geral/leigo, por meio de programas e ações que se estendam para além da educação formal, alcançando também as pessoas que não frequentam a escola, para que todos tenham o direito de acessar as informações sobre C&T e compreender como seu avanço e como o emprego de novas tecnologias afetam suas vidas, de maneira individual e em sociedade. Nesse sentido, a divulgação científica assume um papel preponderante.


Por divulgação científica, Bueno (2010) entende aquela que tem como prioridade o indivíduo que não tem uma formação técnico-científica que dê a ele base para interpretar os jargões técnicos ou compreender os conceitos e o processo de circulação de informações especializadas. Sendo necessário, portanto, decodificar ou recodificar o discurso especializado, utilizando, para isso, recursos como metáforas, ilustrações ou infográficos. Silva (2016) explica que para o discurso da divulgação científica, além da reformulação do texto científico, é necessário modificar o estilo, a sequência responsável pela organização das partes, as ilustrações, a diagramação do texto, etc, sem distorcer seu conteúdo e/ou simplificá-lo de maneira exagerada.


Outro aspecto que se observa além da falta de acesso e da pouca apropriação da informação científica pelos brasileiros é o fenômeno crescente da desinformação, definida pela Comissão Europeia (2018) como a informação comprovadamente falsa ou enganadora que é criada e divulgada para obter vantagens econômicas ou para enganar intencionalmente a população e que é suscetível de causar prejuízos públicos.


A desinformação provoca confusão e induz a população a desacreditar em fatos já comprovados cientificamente e a não confiar na ciência, nas instituições e nos cientistas. Isso vem acontecendo fortemente nos últimos três anos, em especial, a partir de 2020, com a maior crise sanitária mundial provocada pela Corona Virus Disease (COVID-19).


Quando Moreira expôs em seu artigo, em 2008, que a divulgação científica da mídia era insuficiente, ele referia-se a um cenário ainda incipiente dessa área, mas já é possível perceber que esse contexto foi alterado. Atualmente, encontram-se vários materiais de divulgação científica disponibilizados em blogs, canais no Youtube, no Facebook, no Instagram, entre outros, produzidos por cientistas e instituições de ensino e pesquisa.


Entretanto, como destacam Castelfranchi (2020) e Roque (2021), não se trata apenas de fazer mais divulgação da ciência, ou de fazer uma divulgação melhor e mais atraente. A questão é também a construção de uma relação de confiança com a sociedade, aproximando-se mais da população e entendendo os códigos que ela usa. Para isso é necessário iniciar a divulgação pela escuta das demandas de grupos e pessoas específicas.


A partir do exposto, considera-se premente a elaboração e implementação de políticas públicas de divulgação científica que busquem uma aproximação maior com a sociedade. É necessário que o público leigo compreenda o que é C&T, qual é a sua aplicação no dia a dia e conheça quem faz a ciência (cientistas e instituições). Dessa forma ele será capaz de entender a relevância da C&T para sua vida; de analisar a veracidade das informações que recebe; de apoiar os investimentos na área; e, por que não, sentir-se atraído pela ciência e decidir seguir esse caminho, principalmente a parcela mais jovem da população.


A divulgação científica feita a partir da escuta é um dos meios pelos quais se pode (re)construir essa relação de confiança entre sociedade e ciência.


Referências


MOREIRA, I. C. A divulgação da ciência e da tecnologia no Brasil. Revista Diversa, [S. l.], v. 7, n. 13, fev. 2008. Disponível em:

https://www.ufmg.br/diversa/13/artigo4.html. Acesso em: 10 abr. 2021.


BRASIL. Ministério da Ciência e Tecnologia. Percepção pública da C&T no Brasil – 2019: resumo executivo. Brasília: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2019. Disponível em: https://www.cgee.org.br/documents/10195/734063/CGEE_resumoexecutivo_Percepcao_pub_CT.pdf/ce15e51d-d49d-4d00-abcf-3b857940c4c7?version=1.0. Acesso em: Acesso em: 8 fev. 2021.


OLIVEIRA, S. M. Ciência para a inclusão [maio 2007]. Entrevista concedida a Fábio Castro. São Paulo: Agência FAPESP, 2007. Disponível em: https://agencia.fapesp.br/ciencia-para-a-inclusao/7136/. Acesso em: 16 mar. 2021.


BUENO, W. C. Comunicação cientifica e divulgação científica: aproximações e rupturas conceituais. Informação & Informação, [S.l.], v. 15, n. 1esp, p. 1-12, dez. 2010. DOI: http://dx.doi.org/10.5433/1981-8920.2010v15n1espp1. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/informacao/article/view/6585. Acesso em: 2 fev. 2021.


ALTMAN, G. Telefone Celular Smartphone Tablet Branco. Geralt, Freiburg/Deutschland , 26 de Dezembro de 2014. 1 Imagem jpg. 4961×3508. Disponível em: https://pixabay.com/pt/photos/telefone-celular-smartphone-tablet-579543/. Acesso em: 5 mar. 2021.


SILVA, R. L. A caracterização textual-discursiva do artigo de divulgação científica. 2016. 301f. Tese (Doutorado em Língua Portuguesa) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2016. Disponível em: https://tede2.pucsp.br/handle/handle/14387. Acesso em: 2 fev. 2021.


COMISSÃO EUROPÉIA. Combater a desinformação em linha: uma estratégia europeia. Bruxelas, 26 abr. 2018. Disponível em: https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/?uri=CELEX%3A52018DC0236. Acesso em: 27 abr. 2020.


CASTELFRANCHI, Y. Divulgação científica em tempos de pandemia. In: MARCHA pela ciência - Abertura - versão editada. [S. l.: s. n.], 2020b. 1 vídeo (1h12min). Publicado pelo canal Marcha pela ciência em Minas. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Gi6EJve4oL8. Acesso em: 7 maio 2020.


ROQUE, T. M. Divulgação Científica e Extensão Universitária. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA, 9., 2021. Belo Horizonte: UFMG, 2021. 1 vídeo (1h43min). Publicado pelo canal Extensão UFMG. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=b-NU7CJBlNQ. Acesso em: 9 mar. 2021.


Como citar


FERREIRA, S. A.; OLIVEIRA, D. A. Desinformação, crise de confiança na ciência e necessidade de políticas para divulgação científica. Ciência da Informação Express, [S. l.], v. 2, n. 4, 9 abr. 2021. Disponível em: https://www.cienciadainformacaoexpress.com/post/desinforma%C3%A7%C3%A3o-crise-de-confian%C3%A7a-na-ci%C3%AAncia-e-necessidade-de-pol%C3%ADticas-para-divulga%C3%A7%C3%A3o-cient%C3%ADfica


Dados biográficos das autoras

*Silvania Alves Ferreira é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Gestão e Organização do Conhecimento (PPG-GOC) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da UFMG (2017). Graduada em Biblioteconomia pela UFMG (2005). Atualmente é bibliotecária no Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de Minas Gerais (SEBP-MG). Tem experiência na área de Ciência da Informação, com ênfase em Biblioteconomia, atuando principalmente nos seguintes temas: bibliotecas públicas e sistemas de bibliotecas.

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** Dalgiza Andrade de Oliveira é Professora Associada da Escola de Ciência da Informação (ECI)/Programa de Pós-Graduação em Gestão da Organização e do Conhecimento (PPGGOC) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Doutora em Ciência da Informação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da UFMG (2011). Mestre em Ciência da Informação (PPGCI/UFMG-2005). Bacharel em Biblioteconomia (Escola de Biblioteconomia - UFMG-1991).

E-mail: dalgizamg@gmail.com

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