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Culturas epistêmicas das Humanidades Digitais na convergência do discurso d abertura do conhecimento

Atualizado: 6 de dez. de 2022

por Beatriz Barrocas Ferreira e Maria Manuel Borges*


As Humanidades Digitais, pela sua natureza interdisciplinar, heterogênea e compreensiva, podem vir a desempenhar um papel relevante na consolidação do discurso de abertura do conhecimento, em função das comunidades epistêmicas que representam.

As Humanidades Digitais podem ser consideradas um campo inter e transdisciplinar, com diversas intersecções entre as artes e humanidades e as áreas de computação, estudos de cultura, comunicação e ciência da informação (EDMOND; LEHMANN, 2021). Integram várias culturas epistêmicas, sendo, por isso, marcadas por diversas práticas de produção do conhecimento, as quais, apesar de convergirem entre si, refletem características diferentes. Ao mesmo tempo, no cenário atual da investigação, têm-se tornado relevantes, ao assumirem um papel de destaque no empoderamento digital em humanidades.


A abordagem das culturas epistêmicas foi introduzida por Karin Knorr-Cetina, nos seus estudos sobre física de alta energia e biologia molecular, e visa salientar os mecanismos dos processos de construção do conhecimento, encarando-o como uma prática (KNORR-CETINA, 1999, 2007). Esta abordagem considera vários núcleos que compõem as diversas culturas epistêmicas do conhecimento. Ao mesmo tempo, reconhece que cada cultura epistêmica adota mecanismos diferentes que resultam na construção de processos de conhecimentos diferenciados, o que implica reconhecer a diversidade e fragmentação da investigação.


A comunicação acadêmica é um sistema complexo que reflete os fluxos de produção do conhecimento (HURD, 2004), que contempla os processos de investigação, sendo considerada como o seu objetivo último (BORGES, 2017). Neste sistema, estão incluídas todas as culturas epistêmicas cuja variedade impede um discurso monolítico no que se refere à comunicação acadêmica.


No cenário atual da investigação, já não é possível referir-se a comunicação acadêmica sem mencionar as tecnologias digitais, apesar de sua adoção ser diferenciada pelas distintas culturas epistêmicas, influenciando, assim, o desenvolvimento da investigação em todas as etapas do processo (ANTONIJEVIĆ, 2015).


A Ciência Aberta surge pelo aproveitamento das oportunidades possibilitadas pelas tecnologias digitais no horizonte da comunicação acadêmica, associado à mudança de cultura na investigação, sendo caracterizada pelos princípios de transparência e acessibilidade ao conhecimento, através de redes colaborativas (VICENTE-SAEZ; MARTINEZ-FUENTES, 2018). Assenta em vários pilares, dos quais Abadal (2021) destaca o acesso aberto; os dados abertos; a revisão por pares aberta; a utilização de preprints; a ciência cidadã; e os novos modelos de avaliação da investigação. A tendência para a ciência aberta tem sido a prioridade por vários dos intervenientes do sistema de comunicação acadêmica. Contudo, as marcas do discurso têm de estar mais alinhados com o fazer ciência próprio das Humanidades. Isso não se deve, por completo, a resistência a estes valores, mas sim a constrangimentos que colidem com a implementação da Ciência Aberta em humanidades, que, pelas suas características epistêmicas, não o permitem, pelo menos da forma como o discurso e as iniciativas estão construídos (ARTHUR; HEARN, 2021; KNÖCHELMANN, 2019; WATCHORN, 2022).


É, neste sentido, que se destaca a importância na adoção de um discurso dedicado à abertura do conhecimento em humanidades – humanidades abertas-, que considere as diferentes culturas epistêmicas presentes nesta área e, consequentemente, todas as suas características e práticas de investigação (ARTHUR; HEARN, 2021; KNÖCHELMANN, 2019). O desenvolvimento e adoção do discurso de humanidades abertas concorre para a articulação entre os interesses, métodos, práticas das suas culturas epistêmicas, e da dimensão tecnológica. Ao mesmo tempo, este discurso dedicado permite a coesão de práticas de comunicação acadêmica, adaptando-as à realidade urgente de abertura do conhecimento.


As humanidades digitais, por integrarem as culturas epistêmicas das humanidades e representarem os seus valores, enquanto adotam características interdisciplinares que se alinham facilmente com os princípios de Ciência Aberta, encontram-se numa posição favorável para assumirem este discurso e implementá-lo, junto de todas as áreas do conhecimento.


A prática de Ciência Aberta tem um grande peso na comunicação acadêmica, influenciando vários intervenientes que desempenham papeis de tomada de decisão. Neste sentido, é importante que os participantes no sistema estejam cientes da abordagem das culturas epistêmicas e a fragmentação da investigação que a mesma implica, no momento de desenvolvimento de políticas, infraestruturas adequadas aos diferentes processos de construção do conhecimento.


O discurso da Ciência Aberta veio introduzir diversos tópicos urgentes no cenário da investigação e da comunicação acadêmica. Contudo, parece ainda não contemplar na sua totalidade as diferentes áreas do conhecimento, não reconhecendo, assim, as suas várias práticas. Embora esteja bem construído para ser adaptado à realidade das culturas das ciências, tal não se verifica na realidade das humanidades, verificando-se, sobretudo, na comunicação acadêmica destas culturas epistêmicas. Por isso, salienta-se a necessidade de adoção de um discurso dedicado à abertura do conhecimento, que considere a diversidade de práticas de comunicação das humanidades. Neste sentido, as humanidades digitais podem vir a representar um lugar de destaque na consolidação deste discurso, pela sua natureza, mas especialmente pelas culturas epistêmicas que a integram.


Referências


ABADAL, E. Ciencia abierta: un modelo con piezas por encajar. Arbor, Madrid, v. 197, n. 799, p. a588, 13 abr. 2021. DOI: 10.3989/arbor.2021.799003. Disponível em: https://arbor.revistas.csic.es/index.php/arbor/article/view/2403. Acesso em: 1 dic. 2022.

ANTONIJEVIĆ, S. Amongst Digital Humanists: an ethnographic study of digital knowledge production. New York: Palgrave Macmillan, 2015.

ARTHUR, P. L.; HEARN, L. Toward open research: a narrative review of the challenges and opportunities for open humanities. Journal of Communication, Oxford, v. 71, n. 5, p. 827–853, 1 out. 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1093/joc/jqab028. Acesso em: 1 dic. 2022.

BORGES, M. M. Reflexos da tecnologia digital no processo de comunicação da ciência. In: JORENTE, Maria José Vicentini; PADRON, Dunia Ilane. Una mirada a la ciencia de la información desde los nuevos contextos paradigmáticos de la postmodernidad. Marília; São Paulo: Oficina Universitária; Cultura Acadêmica, 2017. p. 179–196. Disponível em: https://www.marilia.unesp.br/Home/Publicacoes/una-mirada-a-la-ciencia-de-la-informacion---completa.pdf. Acesso em: 1 dic. 2022.

EDMOND, J.; LEHMANN, J. Digital humanities, knowledge complexity, and the five “aporias” of digital research. Digital Scholarship in the Humanities, Oxford, v. 36, p. 95–108, out. 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1093/llc/fqab031. Acesso em: 1 dic. 2022.

HURD, J. M. Scientific communication: new roles and new players. Science & Technology Libraries, London, v. 25, n. 1-2, p. 5-22, 2004. Disponível em: https://doi.org/10.1300/J122v25n01_02. Acesso em: 1 dic. 2022.


KNÖCHELMANN, M. Open Science in the Humanities, or: Open Humanities? Publications, Basel, v. 7, n. 4, p. 65, dez. 2019. Disponível em: https://www.mdpi.com/2304-6775/7/4/65. Acesso em: 1 dic. 2022.

KNORR-CETINA, K. Epistemic cultures: how the sciences make knowledge. Cambridge, Mass: Harvard University Press, 1999.

KNORR-CETINA, K. Culture in global knowledge societies: knowledge cultures and epistemic cultures. Interdisciplinary Science Reviews, London, v. 32, n. 4, p. 361–375, dez. 2007. Disponível em: https://doi.org/10.1179/030801807X163571. Acesso em: 1 dic. 2022.

VICENTE-SAEZ, R.; MARTINEZ-FUENTES, C. Open science now: a systematic literature review for an integrated definition. Journal of Business Research, Dhaka, v. 88, p. 428–436, jul. 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jbusres.2017.12.043. Acesso em: 1 dic. 2022.

WATCHORN, D. What does Open Science mean for disciplines where pen and paper are still the main working methods? Impact of Social Sciences, London, 21 abr. 2022. Disponível em: https://blogs.lse.ac.uk/impactofsocialsciences/2022/04/21/what-does-open-science-mean-for-disciplines-where-pen-and-paper-are-still-the-main-working-methods/. Acesso em: 23 abr. 2022


Dados biográficos das autoras


Beatriz Barrocas Ferreira, com formação superior em Ciência da Informação, tem vindo a construir o seu percurso profissional em torno das bibliotecas de ensino superior, sendo, atualmente, estudante de doutoramento em Ciência da Informação pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É investigadora colaboradora no Grupo de Humanidades Digitais, do Centro de Estudos Interdisciplinares (CEIS20) da Universidade de Coimbra. Os seus interesses de investigação focam-se no âmbito da comunicação acadêmica e nas alterações que esta tem sofrido com as implicações nascidas das oportunidades oferecidas pelas tecnologias digitais, e pelo discurso de ciência aberta adaptado às diferentes áreas do conhecimento. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4402-9342


Maria Manuel Borges é Professora Associada em Ciência da Informação na Universidade de Coimbra e co-coordenadora do Grupo de Humanidades Digitais, do Centro de Estudos Interdisciplinares (CEIS20) da Universidade de Coimbra. É coordenadora do Doutoramento em Ciências da Informação na Universidade de Coimbra. Tem uma vasta experiência na supervisão de teses de doutoramento e mestrado. É membro da International Society for Scientometrics and Informetrics, Association of Digital Humanities (AHDig), e da BAD, Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Profissionais da Informação e Documentação. Além disso, é membro do conselho editorial de revistas nacionais e internacionais e Editora Associada do Directory of Open Access Journals (DOAJ). É membro do Grupo de Trabalho Interministerial, subgrupo Avaliação de Investigação, para a iniciativa Nacional de Ciência Aberta. É também perita da Agência de Avaliação e Acreditação (A3ES) para acreditação de cursos de Ciência da Informação em Portugal. Além disso, é membro da Research Data Alliance e e foi membro do Conselho Consultivo do nó português (RDA.pt) em representação da Universidade de Coimbra. Colaborou na Estratégia Nacional de Dados Abertos com a iniciativa do INCoDE.2030. É membro do Conselho Consultivo do TRIPLE (Transforming Research through Innovative Practices for Linked Interdisciplinary Exploration), um projeto financiado pelo H2020-EU.1.4.1.3. Os seus atuais interesses de investigação são a comunicação acadêmica, centrando-se no acesso aberto e ciência aberta, avaliação de investigação e gestão de dados de investigação. OCID: https://orcid.org/0000-0002-7755-6168.

 

Como citar


FERREIRA, Beatriz Barrocas; BORGES, Maria Manuel. Culturas epistémicas das Humanidades Digitais na convergência do discurso de abertura do conhecimento. Ciência da Informação Express, Lavras, v. 3, 28 nov. 2022.

 

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