Como a desinformação sobre Covid19 no WhatsApp foi utilizada para amenizar crises do Governo Federal

Por Felipe Soares, Raquel Recuero, Taiane Volcan, Giane Fagundes e Giéle Sodré


Press Release


A nossa pesquisa mostrou como a desinformação sobre Covid-19 enquadrou a pandemia como um tema de debate político, deixando a questão da saúde pública em segundo plano.

Fonte: Banco de imagem do Wix (2021)

A pandemia da Covid-19 no Brasil foi atravessada pelo fenômeno de espalhamento de desinformação, classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma "infodemia"*. Ou seja, vivemos também um fenômeno de espalhamento de informações falsas ou distorcidas junto com a pandemia do coronavírus. Essa disseminação em massa de informações falsas favorece a polarização de sentimentos relacionados à pandemia (ALLCOTT et al., 2020), dificultando o combate ao vírus.


Neste trabalho, discutimos como o enquadramento da pandemia enquanto debate político favoreceu o espalhamento de desinformações relacionadas à saúde. O aspecto político foi especialmente relevante para a compreensão da pandemia no Brasil, uma vez que a principal fonte de legitimação e impulsionamento de algumas das informações falsas que circularam no país foi o presidente Jair Bolsonaro. O chefe de estado minimizou a pandemia; fez campanha contra medidas sanitárias de contenção do vírus, defendeu remédios sem eficácia para a covid-19 e desacreditou as vacinas.


Com isso, a pandemia no Brasil foi transformada em pauta central de uma arena política extremamente polarizada, na qual um lado defendeu medidas de combate e mitigação dos efeitos da pandemia, enquanto o outro lado boicotou todas as medidas defendidas por cientistas e organizações internacionais de saúde, com o apoio do presidente da república e de seu aparato de estado.


Para analisar essa disputa, exploramos a desinformação sobre Covid-19 que circulou no WhatsApp, uma ferramenta relevante de circulação de informação política no Brasil, já que é o aplicativo de mensagens mais popular no país (RESENDE et al., 2018) e é considerado por 57% dos brasileiros como uma fonte importante ou muito importante no acesso a informações políticas (BAPTISTA et al., 2019). Além disso, o aplicativo é identificado como o principal meio de espalhamento de desinformação no país (NEWMAN et al., 2020) tendo papel central no espalhamento de informações falsas sobre diversos acontecimentos políticos nacionais (REIS et al., 2020).


Por meio do monitor do WhatsApp (RESENDE et al., 2018), coletamos as mensagens mais compartilhadas sobre a pandemia em mais de 500 grupos públicos entre março e abril de 2020. O nosso conjunto de dados final teve 802 mensagens, que alcançaram quase 35 mil compartilhamentos somente nos grupos monitorados pelo Monitor do WhatsApp, o que dá uma dimensão do impacto social que tiveram no contexto da pandemia. Ao analisar a distribuição do compartilhamento de desinformação ao longo do tempo, identificamos o impacto dos dois pronunciamentos de Jair Bolsonaro (nos dias 24 e 31 de março) no espalhamento de desinformação sobre o Covid-19 no WhatsApp.


No dia seguinte ao primeiro pronunciamento, 25 de março, identificamos o pico de compartilhamento de desinformação nos nossos dados - um aumento de quase 900% no compartilhamento de desinformação em comparação ao dia 24 de março. O dia seguinte ao segundo pronunciamento, 1º de abril, também registrou aumento no compartilhamento de mensagens desinformativas (Figura 1).

Outro aspecto relevante que observamos foi a relação da desinformação com crises do governo federal, como na demissão do então ministro da saúde, Henrique Mandetta. O período de crise entre Mandetta e Bolsonaro, que envolveu atritos públicos, foi também o período com maior número de mensagens desinformativas sobre o então ministro. O auge da crise entre os dois, a partir do final de março, também foi quando Mandetta alcançou maior popularidade entre os brasileiros. Com a demissão de Mandetta, também diminui o número de mensagens sobre ele (Figura 2).

Já em relação aos tópicos presentes nas mensagens desinformativas, descobrimos que as mensagens frequentemente apontavam que as medidas de combate ao Covid-19 seriam prejudiciais à economia; mencionavam que as ações dos governadores e prefeitos eram problemáticas e tinham interesses contrários a Bolsonaro; afirmavam que a mídia, o Congresso, os “esquerdistas”, o Supremo Tribunal Federal e mesmo Mandetta eram parte de um plano para prejudicar o presidente. Além disso, diversas mensagens também apontavam um suposto envolvimento criminoso da China na pandemia (inclusive acusando o país de intencionalmente criar o vírus) e como o país estaria se beneficiando economicamente do espalhamento do Covid-19 para outros países.


A análise das conexões entre os tópicos também confirma a nossa conclusão de que a desinformação sobre o Covid-19 no WhatsApp foi influenciada pelo discurso político, tratando o tema não como algo de saúde pública, mas como um embate ideológico, no qual um lado estaria conspirando contra o presidente da república e o outro defendendo os verdadeiros interesses do país, como a economia e o governo. O enquadramento da pandemia pelo discurso político também se reflete nas características da desinformação. Na classificação dos tipos de desinformação, descobrimos que as teorias da conspiração foram o tipo de desinformação mais frequente no nosso conjunto de dados (324 mensagens – 41%). Elas foram seguidas de perto pela distorção (315 - 39%) e as informações fabricadas foram o tipo de desinformação menos frequente nos nossos dados (163 –20%).

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A proeminência de teorias da conspiração no WhatsApp pode estar relacionada com a característica mais privada na forma como os usuários percebem a plataforma (VALERIANI; VACCARI, 2017). Em função da menor exposição do conteúdo que usuários compartilham, assim como maior controle em sua audiência, o WhatsApp parece favorecer o espalhamento de teorias da conspiração. Além disso, geralmente há maior alinhamento interno dos grupos na plataforma, o que pode resultar em menor questionamento sobre essas conspirações.


Entre as estratégias discursivas, a mais frequente nos nossos dados foi o uso de opinião, que apareceu em aproximadamente três quartos das mensagens. É importante destacar que a opinião teve correlação positiva com as teorias da conspiração, o que mostra que a defesa de um “ponto de vista” foi uma estratégia discursiva comum para sustentar as desinformações conspiratórias. A opinião aparece frequentemente como um recurso que justifica ou estabelece conexões entre eventos específicos que geram as narrativas conspiratórias


A partir dessas estratégias discursivas e temáticas abordadas, observamos que a desinformação parece ser utilizada como uma resposta ao momento político, ou seja, como uma ferramenta para combater crises ou apagar incêndios (PAUL; MATTHEWS, 2016) do governo Bolsonaro. Com isso, destacamos a relevância de observar o fenômeno da desinformação sempre a partir do contexto político e social em que aparece, afinal, é nesta relação que aparecem pistas sobre as motivações e estratégias para a propagação da desinformação.


________ * WORDL HEALTH ORGANIZATION. 2021. Disponível em: https://www.who.int/teams/risk-communication/infodemic-management/ . Acesso em: 14 set. 2021.


Para ler o artigo na íntegra, acesse:


SOARES, F. B.; RECUERO, R.; VOLCAN, T.; FAGUNDES, G.; SODRÉ, G. Desinformação sobre o covid-19 no whatsapp: a pandemia enquadrada como debate político. Ciência da Informação em Revista, v. 8, n. 1, p. 74-94, 2021. DOI: 10.28998/cirev.2021v8n1e Acesso em: 14 set. 2021.


Referências


ALLCOTT, H.; BOXELL, L.; CONWAY, J. C.; GENTZKOW, M.; THALER, M.; YANG, D. Y. Polariza-tion and Public Health: Partisan Differences in Social Distancing during the Coronavirus Pan-demic (Working Paper No. 26946; Working Paper Series). National Bureau of Economic Re-search. 2020. DOI: https://doi.org/10.3386/w26946.


BAPTISTA, E. A.; ROSSINI, P.; OLIVEIRA, V. V., STROMER-GALLEY, J. A circulação da (des)informação política no WhatsApp e no Facebook. Lumina, v. 13, n. 3, p. 29-46, 2019.


PAUL, C., MATTHEWS, M. The Russian "Firehose of Falsehood" Propaganda Model: Why It Might Work and Options to Counter It. RAND Corporation, Santa Monica, CA, 2016. Disponível em https://www.rand.org/pubs/perspectives/PE198.html


REIS, J. C. S.; MELO, P.; GARIMELLA, K.; BENEVENUTO, F. Can WhatsApp benefit from de-bunked fact-checked stories to reduce misinformation?. The Harvard Kennedy School (HKS) Misinformation Review, v. 1, n. 5, 2020. DOI: https://doi.org/10.37016/mr-2020-035.


RESENDE, G.; MESSIAS, J.; SILVA, M.; ALMEIDA, J.; VASCONCELOS, M.; BENEVENUTO, F. A System for Monitoring Public Political Groups in WhatsApp. Proceedings of the 24th Brazilian Symposium on Multimedia and the Web (WebMedia ’18). Association for Computing Machinery, New York, NY, USA, 387–390, 2018. DOI: https://doi.org/10.1145/3243082.3264662.


VALERIANI, A.; VACCARI, C. Political talk on mobile instant messaging services: a comparative analysis of Germany, Italy, and the UK. Information, Communication & Society, v. 21, n. 11, p. 1715-1731, 2018. DOI: 10.1080/1369118X.2017.1350730.


Dados biográficos dos autores

Felipe Bonow Soares é doutor em Comunicação e Informação (PPGCOM/UFRGS) e pesquisador do MIDIARS (Laboratório de Pesquisa em Mídia, Discurso e Análise de Redes)

https://orcid.org/0000-0003-4850-9255


Raquel Recuero é professora e pesquisadora da UFPEL e do PPGCOM/UFRGS. Coordenadora e pesquisadora do MIDIARS (Laboratório de Pesquisa em Mídia, Discurso e Análise de Redes)

https://orcid.org/0000-0002-7417-9782


Taiane Volcan é doutora em Letras pelo PPGL/UFPEL e pesquisadora do MIDIARS (Laboratório de Pesquisa em Mídia, Discurso e Análise de Redes)

https://orcid.org/0000-0002-3678-2329