Razão, Ciência e Humanismo por Steven Pinker

Atualizado: 8 de jul.

Rosangela da Silva Gomes e Mardem Leandro Silva*


Os que são governados pela razão não desejam para si nada que também não desejem para o resto da humanidade”. Baruch Spinoza


Steven Arthur Pinker (1954) é psicólogo e linguísta canadense, professor de Harvard e se apresenta como um notável defensor da razão. Tal como se faz notar em seu livro “O novo iluminismo” (2018), Pinker mobiliza todo um arsenal de fatos, dados e sofisticada interpretação para lançar luz nova por sobre a visão de mundo contemporânea. Indo na contramão do zeitgeist filosófico contemporâneo, sobretudo do eixo continental, posto que na atualidade o conjunto de proposições que compõe o arsenal da filosofia tida como pós-moderna avança em uma direção francamente oposta, na qual não faltam exemplos ou narrativas que deponham contra o argumento de que estaríamos vivendo um novo iluminismo.

A título de contexto, o iluminismo, ou Ilustração, foi um influente processo de produção cultural, política, social, filosófico e científico, que localiza suas origens na aurora do século XVII, com a proposição da Revolução Científica encabeçada por personagens como o filósofo e matemático René Descartes (1596-1650) e o físico Isaac Newton (1643-1727), entretanto o movimento ganha fôlego de pleno desenvolvimento apenas durante o século seguinte. Não sem razão, o período setecentista, dos anos 1700, é qualificado como sendo o Século das Luzes. 


Apesar de seus ideais claramente distintivos: liberdade, razão, ciência, humanismo e progresso, o iluminismo não se organizou enquanto movimento homogêneo, não sendo um movimento francês, ou inglês apenas. Tanto é que o próprio conceito faz referência à palavra alemã Aufklärung, que significa esclarecimento. As teses do iluminismo asseveravam que a razão, desde que aliada ao método científico, poderia fornecer as verdades, instrumentais ou elementares que funcionariam como fundamento seguro do progresso humano e do conhecimento.


Partindo desde pressuposto, seria mais fácil compreender a iniciativa de alguns distintos personagens da história das ideias, tal como o enciclopedista Denis Diderot (1713-84), o filósofo Voltaire (1694-1778), o reformador da educação Jean-Jacques Rousseau (1712-78) e o escritor político Montesquieu (1689-1755), que compuseram os fundamentos de uma abordagem enciclopedista e mecanicista, ou seja, a fundamentação de uma perspectiva racionalista desde a qual a realidade passa a ser reconhecida a partir de um empreendimento investigativo, capaz de descrever, classificar e prever a realidade. Nesse sentido, é a razão quem ilumina todos os aspectos da vida humana, e nesse conseguinte ela não se reduz ao escopo de um ideal apenas, posto que se impõe como a concretude efetiva do pensar e do agir humano. Uma perspectiva que se apresentou infensa aos ditames de uma tradição e instrumentação dogmática de outrora.


Em face a essa visão de conjunto, e de posse do conhecimento dos movimentos que sucederam ao iluminismo, tal como o romantismo, (que pavimentou certa perspectiva nostálgica desde a qual o iluminismo passou a ser negado em seu pendor cientificista) o existencialismo (que colocava em cheque as pretensões universais em detrimento de um conhecimento do indivíduo), e o niilismo (que radicalizava a posição cética e pessimista da realidade), Pinker não recua de suas ambições iluministas, ao contrário, ele as toma como índice de certa superação deste estado de coisas. De tal forma que o auge do livro “O Novo Iluminismo”, pode ser localizado na abrangente exposição apresentada na parte III, na qual o autor tenta reafirmar os ideais do Iluminismo em pleno século 21, na mesma medida em que ambiciona verificar sua aplicação conceitual. Na terceira parte, o autor argumenta que os ideais do iluminismo: razão, ciência e humanismo permanecem atuais, e mais que isso, alcançam seu pleno sentido, tal como se verifica nas passagens de dados, fontes e referências apresentados anteriormente, e que tematizam as provas e interpretações sobre as conquistas, descobertas e evolução da sociedade.


Para Pinker, o primeiro ideal do iluminismo seria a razão – ela é inegociável, afirma o psicólogo. A razão é fundamental, pois mesmo as proposições admitidas como irracionais deverão receber esta definição em função dos critérios da razão. É a razão a legisladora. Não se trata de acreditar na razão, no sentido religioso do termo, trata-se de usar a razão, de efetivá-la. A razão não é objeto de crença, mas sim de transformação da realidade. A aplicação da razão ao mundo se apresenta como válida ao nos conceder a capacidade de moldar o mundo à nossa vontade, à nossa feição, nós antropomorfizamos o mundo. A humanidade produz a antroposfera, local de natureza transformada pelo uso sistemático da razão. É a razão que permitirá o espaço da liberdade, dos direitos humanos, da conciliação, do avanço técnico, da ciência, e do humanismo.


Na linha dos ideiais, o segundo ideal seria a ciência uma ferramenta de explicitação da razão, uma ferramenta de uso metodológico da razão, o grande recurso do humano para descrever, classificar, compreender e prever as relações de causalidade das coisas do mundo. Pinker justifica que na atualidade com o enorme crescimento da ciência, fica mais difícil fazer uma grande descoberta, pois cada centímetro do mundo já foi investigado, suas leis, princípios e relações. As descobertas científicas continuam a surpreender, a deleitar, a responder ao que antes não propunha resposta. Para tomar apenas um exemplo do capítulo seis, foi o conhecimento científico que permitiu a erradicação da varíola, uma doença dolorosa e desfigurante que matou 300 milhões de pessoas só no século XX.


Não obstante, vemos nos dias atuais muitos intelectuais enfurecidos com a intrusão dos argumentos técnicos da ciência em territórios tradicionais de deliberação social, como a política, a história e as artes. Entretanto, o avanço da ciência não poderia ser responsabilizado pela marcha crescente de guerras, de genocídios, assim como por toda sorte de milenares problemas morais insolúveis. Ao contrário, a ciência se revela como ferramenta indispensável em todas as áreas de interesse humano, a política, as artes e, inclusive, a busca pelo sentido da vida bem como os fundamentos da moralidade.


Para Pinker o bom uso da ciência nos permitiria conceber os fundamentos do que poderia vir a ser a natureza humana. Esta proposição de natureza humana é um tema presente em suas investigações, desde o lançamento de seu livro “Tábula rasa: a Negação Contemporânea da Natureza Humana”, na qual o autor argumenta contra os modelos de tabula rasa nas ciências sociais, argumentando que o comportamento humano é substancialmente moldado pela evolução psicológica evolutiva. No contexto do desdobramento desta investigação, Pinker nos apresenta o argumento de que tanto a razão, quanto a ciência são ferramentas para o cultivo de um novo humanismo. Aqui a palavra novo é importante, pois toda a argumentação de Pinker gira em torno de uma repaginação de conceitos e termos, de modo que a ideia de iluminismo, de razão, ciência e humanismo são revistos, atualizados e compaginados em face aos impasses do contemporâneo.


Parte decisiva do argumento de um novo iluminismo parece gravitar o orbital de significação do progresso, posto que gira em torno do medo que a humanidade parece apresentar diante da mudança, do progresso: a progressofobia. Trata-se de um medo que impede que se coloque em justo valor as árduas conquistas, descobertas e evolução da sociedade. De tal forma que essa atmosfera de medo associada à espetacularização midiática compõe um cenário de pessimismo quanto aos destinos do mundo, posto que se correlaciona com um franco ceticismo em relação as instituições modernas, aos intermináveis conflitos armados e desastrosas guerras de poder.


O livro é instigante, bem fundamentado, elenca dados, fatos e argumentos, apresenta interpretações plausíveis. Mas a impressão que passa, ao fim, é que ele recorre, sem fazer menção, ao velho salto da fé existencialista proposto por Kierkegaard, ou a memorável aposta de Pascal. De tal forma a nos fazer reconhecer ser preciso fazer uma aposta, entre qual visão de mundo irá permanecer – entre a sombra do medo da desordem que vemos à nossa porta, ou a nova luz que a reordena – a despeito de sua montanha de dados, pois o debate que sucedeu ao lançamento de o novo iluminismo deixou claro não haver consenso no mundo da ciência sobre as posições de Pinker. Aqui fica exposto algo do espírito do tempo pós-moderno, tal como tipificado por Vattimo (1996), no qual a experiência da verdade é de fato uma experiência puramente retórica e estética.


Referências


PINKER, Steven. O novo iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


PINKER, Steven. Tábula Rasa: a negação contemporânea da natureza humana. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.


VATTIMO, Gianni. O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1996.



Dados biográficos dos autores*



Rosangela da Silva Gomes é mestranda em Ciências da Documentação e Informação pela Universidade de Lisboa. Bacharel em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

E-mail: gomes.rosangell@gmail.com

Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7754-053X

Lattes: http://lattes.cnpq.br/4010191578537878



Mardem Leandro Silva é psicólogo graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Mestre em Psicologia, na linha de pesquisa: Conceitos Fundamentais e Clínica Psicanalítica, pela Universidade Federal de São João del Rei. Doutor em Psicologia, na linha de pesquisa "Conceitos Fundamentais em Psicanálise e Investigações no Campo Clínico e Cultura", pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professor e Chefe do Departamento de Ciências Sociais e Humanidades da UEMG - Unidade Cláudio.

Lattes: http://lattes.cnpq.br/5533451489175747


 

Como citar:


GOMES, R. S.; SILVA, M. L. Razão, Ciência e Humanismo por Steven Pinker. Ciência da Informação Express, [S. l.], v. 3, 7 jul. 2022.

 

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